COVID-19 e gestação

Imagem: https://educamais.com/

POR CRISTIANE ALVES DE OLIVEIRA I 20.04.2020

 

Atualmente, não há evidências de que as mulheres grávidas sejam mais suscetíveis à infecção por SARS-COV-2 e que aquelas com COVID-19 sejam mais propensas ao desenvolvimento de pneumonia grave.

O Ministério da Saúde, em publicação de abril de 2020, incluiu gestantes de alto risco entre as condições clínicas de risco para desenvolvimento de complicações e considera puerpério na análise dos óbitos relacionados a fatores de risco. Entende-se como gestantes de alto risco, aquelas que possuem comorbidades (doenças associadas).

Observação: Importante lembrar que gestantes e puérperas têm potencial maior de risco para complicação por infecções pelo vírus influenza H1N1, agente etiológico responsável por quadros gripais com potencial risco de complicação neste público, sendo fundamental que estes sejam avaliados quando apresentam quadros gripais, independente da gravidade de sintomas apresentados.

Atualmente, não há evidências científicas baseadas em ensaios clínicos randomizados (que são aqueles estudos fornecem evidências mais fortes) de qualquer tratamento que melhore os resultados em pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19. Assim como não há estudos que suportem qualquer terapia profilática.

Por esse motivo, as prioridades devem ser focadas em:

  • Reduzir a transmissão da COVID-19 (prevenção); e
  • Fornecer cuidado de suporte adequado em pacientes com COVID-19 suspeita ou confirmada.

O coronavírus vem apresentando padrão de alta transmissibilidade. A transmissibilidade ocorre principalmente através de gotículas e contato físico direto com paciente infectado, sendo o distanciamento social e o isolamento domiciliar as condutas mais eficazes para redução da transmissão (por afastarem pessoas infectadas de não-infectadas)

As estratégias de distanciamento social e isolamento domiciliar são, ainda, fundamentais para evitar o caos do sistema de saúde, permitindo que, com a redução do numero de casos ocorrendo ao mesmo tempo, seja mantida a capacidade do sistema de saúde em absorver as pessoas com casos leves e graves.

Além do distanciamento social e da higiene das mãos, são recomendações para gestantes:

  • Gestantes, particularmente aquelas consideradas como de alto risco, devem ser afastadas do trabalho.
  • TODAS as gestantes devem usar máscara cirúrgica quando em ambiente hospitalar.
  • No caso de gestantes profissionais de saúde, na impossibilidade de afastamento, estas não deverão realizar atividades de assistência a pacientes e, deverão preferencialmente ser mantidas em atividades de gestão, suporte, assistência nas áreas onde NÃO são atendidos pacientes suspeitos ou confirmados de síndrome gripal, devendo SEMPRE usarem máscara cirúrgica quando em ambiente hospitalar.

Parto

  • A via de parto e o momento do nascimento devem ser individualizados, na dependência da condição clínica da gestante, idade gestacional ou condição fetal. A presença de COVID-19 não é uma indicação por si só de interrupção da gestação.
  • Para uma gestante com COVID-19 suspeita ou confirmada, em que o trabalho de parto se inicia espontaneamente, com progresso adequado, deve ser permitido o parto vaginal.
  • A abreviação do segundo estágio (período expulsivo) através de parto vaginal instrumental na paciente sintomática deve ser considerada, pela dificuldade de a gestante manter os puxos ativos utilizando máscara (que deve ser mantida na mesma durante todo o parto).
  • Nas parturientes com infecção COVID-19 suspeita ou confirmada, o contato pele a pele NÃO está recomendado; porém, manter conduta acolhedora, possibilitando à mãe um contato ocular com a criança.

Transmissão vertical:

  • Há poucas informações sobre as apresentações clínicas do COVID-19 em recém-nascidos. De acordo com alguns estudos, a condição das crianças infectadas pelo COVID-19 é leve ou moderada. A nota técnica Nº 6 do Ministério da Saúde, sobre “Atenção à saúde do recém-nascido no contexto da infecção pelo novo coronavírus”, de 21 de março de 2020 afirma que ainda não há evidência consolidada da transmissão vertical do SARS-CoV-2. Há estudos de casos sendo publicados*, embora com número de recém-nascidos avaliados reduzido, que sugerem a possibilidade de transmissão vertical. Dessa forma, é fundamental monitoramento de recém-nascidos de mães com COVID-19, especialmente aquelas com a doença no momento do parto e, provavelmente, com quadros mais graves.

Durante a hospitalização

  • Os riscos e benefícios da separação temporária do bebê da mãe devem ser discutidos com a mãe pela equipe de profissionais de saúde.
  • Se o bebê ficar no mesmo quarto da sua mãe devido ao desejo da genitora ou por limitações do local, devem ser consideradas a implementação de barreiras físicas e manter o recém-nascido a uma distância de pelo menos 1 metro da mãe com COVID-19.
  • Cada gestante pode ter um único e mesmo acompanhante (sem sintoma gripal) durante toda a internação (que deve usar máscara cirúrgica durante a internação e não circular pelo hospital).
  • Visitas NÃO devem ser permitidas (nem no hospital e nem após o retorno para casa).

Amamentação

  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as puérperas com infecção COVID-19, em bom estado geral, mantenham a amamentação utilizando máscaras de proteção e higienização prévia das mãos.
  • São recomendados:
  • lavar as mãos por pelo menos 20 segundos antes de tocar no bebê ou antes de extrair o leite materno (extração manual ou bomba extratora passível de desinfecção);
  • tentar evitar tossir ou espirrar no bebê enquanto amamenta;
  • usar máscara cirúrgica durante a amamentação (a máscara deverá ser trocada a cada 4 horas ou quando molhada);
  • nos casos de RN no mesmo quarto da mãe, limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência.
  • No caso de se optar pela extração do leite ou pelo uso de fórmula láctea, deve-se considerar a possibilidade de solicitar a ajuda de alguém que esteja saudável para oferecer o leite em copinho, xícara ou colher ao bebê.
  • É necessário que a pessoa que vá oferecer ao bebê aprenda a fazer isso com a ajuda de um profissional de saúde.

Referências:

  1. Boletim Epidemiológico 08 – COE Coronavírus – 06 de abril de 2020. Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde, 09/04/2020.
  2. Orientações COVID-19. Boletim SGORJ, abril 2020.
  3. Pharmacologic Treatments for Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) A Review. JAMA, 13 abril 2020. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2764727
  4. Coronavirus (COVID-19) Infection in Pregnancy. Royal College of Obstetricians & Gynaecologists, 09 abril 2020. Disponível em: https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/2020-04-17-coronavirus-covid-19-infection-in-pregnancy.pdf
  5. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Consideration for inpatient obstetric healthcare settings. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/inpatient-obstetric-healthcare-guidance.html
  6. Nota técnica No 6/2020 COCAM/CGCIVI/DAPES/SAPS/MS 1. Assunto: Atenção à saúde do recém-nascido no contexto da infecção pelo novo coronavírus, 30 de março de 2020. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/notatecnicaneonatal30mar2020COVID-19.pdf
  7. Neonatal Early-Onset Infection With SARS-CoV-2 in 33 Neonates Born to Mothers With COVID-19 in Wuhan, China. JAMA, Pediatrics Published online March 26, 2020. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2763787
  8. Possible Vertical Transmission of SARS-CoV-2 From an Infected Mother to Her Newborn. JAMA, Published online March 26, 2020. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2763853